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A questão da sustentabilidade está em voga e o setor moveleiro também está engajado nessa causa. Empresas e entidades do segmento, junto com outros seis setores industriais, foi um dos primeiros a desenvolver planos de logística reversa, ainda em 2015, para atender a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Mas além das obrigações legais, iniciativas isoladas de aproveitamento de resíduos ajudam a tornar a sustentabilidade uma realidade cada vez mais presente na área do mobiliário.

Uma rápida busca no YouTube mostra diversas dicas para reaproveitamento de resíduos do processo de fabricação de móveis – uma responsabilidade de cada um dos atores do ramo moveleiro.

Neste quesito, muitas iniciativas tem se destacado, inclusive de marceneiros e fabricantes de pequeno e médio porte, que estão conseguindo aliar a solução de um passivo ambiental com o aumento dos lucros proveniente da venda de produtos de decoração e móveis criados com os refugos.

Um desses exemplos é a Nossacasa Mobília Contemporânea, de Curitiba (PR). A fabricante atua no mercado desde 1986, tendo iniciado sua trajetória como fornecedora de peças e, posteriormente, passou a explorar o ramo do sob medida com fabricação de mobília personalizada, como gosta de descrever o diretor de Novos Negócios e Estratégia, Edson Ern.

A empresa conta com 50 colaboradores diretos, incluindo uma equipe própria de montagem e engenharia. E os números de uso de insumos condizem com o tamanho de sua produção: em 2015, a Nossacasa consumiu aproximadamente 15 mil chapas de MDF para fabricação de mobiliário. “O desperdício de material não era alto, 88% era aproveitado, principalmente por termos experiência em trabalhar com móveis planejados”, conta Ern.

 

Dos resíduos um novo produto!

Cadeiras produzidas pela curitibana Nossacasa com resíduos de fabricação de mobiliário
Na Nossacasa, o material que ia para o lixo é usado para produção de novos móveis e peças de decoração da Reinvento

 

Mesmo assim, uma tarde quando chegou à empresa, o diretor viu um caminhão sendo retirado com sobras de materiais. Em uma rápida olhada, contabilizou que estavam sendo enviados para incineração materiais equivalentes a 100 chapas de MDF de 25 mm. “Detectei três grandes prejuízos: para o meio ambiente, para o dono da olaria que tinha que dar fim em um material que não é bom combustível e para nossa empresa que estava literalmente queimando dinheiro”, explica. Além disso, a queima do MDF não é recomendada.

Foi aí que as mudanças começaram. A primeira ação foi conscientizar a equipe para não tratar as sobras como algo que vai para o lixo e sim como insumo para reaproveitamento. O segundo passo foi definir um conceito a seguir. “Nessa etapa entendi que precisávamos reinventar a ideia da fabricação do móvel e, assim, nasceu a marca Reinvento”.

A produção das peças da marca, que se tornou a queridinha da empresa, segundo Edson Ern, ocorre em dias específicos dentro de cada mês, conforme o volume e tipo de resíduos gerados. O resultado? O reaproveitamento subiu para 94% e a meta é chegar, em breve, a 98%, com descarte apenas do pó proveniente do processo de fabricação. Até as embalagens dos produtos são devidamente descartadas pelo programa de logística reversa, sendo enviadas novamente à fábrica.

“Somos um pequeno fabricante, mas temos consciência que nosso esforço para diminuir o impacto que geramos é de grande valia para uma nova geração de consumidores, que dão valor às empresas responsáveis”

Na linha de produtos da Reinvento existem peças pré-desenhadas e a empresa mantém um projeto para receber estudos de outros designers. Funciona assim: é analisada a viabilidade econômica da peça, para que seja produzida em pequenos lotes sempre que os resíduos de produção permitirem, e o pagamento é por meio de royalties. É ou não é uma boa ideia?

Ern explica que devido ao parque fabril atualizado da Nossacasa, não foram necessários grandes ajustes, o que ajudou a criar peças com preço atrativo ao consumidor. Já na qualificação de pessoal, o desafio ocorreu no início do projeto, para que os colaboradores entendessem que é preciso zelar pelas sobras. Hoje, atesta o empresário, isso é uma cultura da empresa.

Desafios para mudar!

Para quem deseja seguir nessa linha de aproveitamento de resíduos, Ern explica que o principal desafio é fazer a marca ser vista como referência em reaproveitamento sustentável. O segundo é conseguir tornar o projeto autônomo. “Nossa meta é que a Reinvento deixe de ser apenas parte da produção da Nossacasa e tenha sua própria área fabril. No futuro, queremos até ‘buscar’ matéria-prima de outros fabricantes de móveis, diminuindo ainda mais o desperdício na cadeia moveleira”.

Conquistar lucro é outro desafio, pontua o diretor. Atualmente, a Reinvento responde por apenas 2% do faturamento da Nossacasa. “O nosso maior ganho ainda é no posicionamento, pois o cliente olha nosso produto e sabe que somos uma empresa preocupada com o lixo que produz.”

Entre as peças produzidas estão letras coloridas, quadros temáticos, móveis de decoração e utilitários. A venda é feita em algumas lojas em Curitiba, mas em breve a marca terá um e-commerce e rede de revendas temáticas (venda de quadros em barbearias, bares, entre outros).

 

 

Logística Reversa

A logística reversa foi instituída no Brasil com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) – criada com a Lei nº 12.305/10. O objetivo é estruturar sistemas de coleta e reciclagem onde os produtos possam seguir o caminho inverso após seu consumo, podendo ser reaproveitados em novos processos produtivos.

Segundo dados divulgados pela Federação de Indústrias do Paraná (Fiep), no Brasil são geradas 240 mil toneladas de lixo ao dia. Deste total, apenas 2% são reciclados. Estima-se ainda que o não aproveitamento desse lixo gera um desperdício de R$ 10 bilhões ao ano.