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Que tal analisarmos mais a fundo a expressão “formadores de opinião”? Muitas vezes temos em mente intelectuais, professores, filósofos e grandes pensadores. Mas, pesquisando, a definição dessas pessoas nos diz: “são aqueles capazes de influenciar a opinião em questão social, política, econômica, entre outras”. Bom, sendo assim, somos todos formadores de opinião, incluindo culturas da periferia, aldeias indígenas, populações ribeirinhas e tantas outras comunidades consideradas à margem da sociedade.

Essa reflexão foi proposta pela Box1824 no estudo “Brasis invisíveis influenciam economia e consumo”, assinado por Mayra Fonseca. Segundo ela, nas últimas décadas fica cada vez mais evidente como os centros de culturas brasileiras e a periferia podem ser influenciadores de centros econômicos.

“É fundamental entender o valor criativo e transformador da diversidade, e de falar com o outro ao invés de sobre o outro”
Mayra Fonseca

Para exemplificar, o serviço ativista de difusão e comercialização de arte indígena Tucum Brasil serve de referência. Com objetivo de propagar o modo de vida dos indígenas, o projeto comercializa, em loja física e online, produtos para o corpo (sandálias, pulseira, colar, bolsa, etc), a casa (cerâmicas, redes, bancos, esculturas, entre outras peças) e arte e design (artigos e coleções assinadas). As peças trazem referências de diversas etnias.

 

 

Tucum – ensinamento e arte indígena

A iniciativa é um coletivo formado por fotógrafos, profissionais de beleza e índios, que compartilham informações e trocam experiências. Afinal, não temos todos algo a ensinar e a aprender com o próximo?

Na mediação entre artesão e público, o projeto Tucum procura transmitir um pouco da história de cada peça, com informações sobre o povo, o artista, o tipo de matéria-prima utilizada, as técnicas e os conhecimentos associados. Essa relação, ressaltam os organizadores do movimento, “resulta numa parceria rica, fruto do encontro entre culturas, gostos, tendências e estilos”.

Tucum é o nome de uma palmeira encontrada em todo o território brasileiro, cujas folhas, frutos e sementes são amplamente utilizados por diferentes populações tradicionais. Com a fibra extraída das folhas se faz uma linha forte e resistente, com a qual se tecem belas redes. “Esta palmeira é nossa inspiração, tecendo redes entre pessoas”, diz o manifesto do coletivo.

 

Do Histórias Rendadas, projeto de Fernanda Yamamoto com as rendeiras da Renascença, do Cariri (PB), nasceu uma coleção de roupas
Fernanda Yamamoto e a coleção criada no projeto Histórias Rendadas

Histórias Rendadas

Outros projetos seguem essa mesma linha, ao olhar potenciais criativos de outras formas. Um deles foi realizado pela estilista Fernanda Yamamoto, que olhou para as mulheres rendeiras de Renascença, da região do Cariri – a 250 km de João Pessoa, capital da Paraíba. O trabalho com essas artesãs foi tema para uma de suas coleções de vestuário, apresentado durante o SPFW 2015, mas Fernanda também aproveitou as sete viagens que fez até a localidade para captar imagens e depoimentos para um documentário chamado Histórias Rendadas.

O que vale indagar, segundo o estudo é: quem influenciou quem? É uma troca. 

As mulheres cederam seus conhecimentos e a estilista transformou isso em algo vendável e economicamente viável para ela e às rendeiras. Inclusive, essas ações perpetuam a cultura e ajudam na sua conservação. Abaixo, o documentário que traz histórias emocionantes da relação dessas mulheres com a renda renascença, um bordado tradicional da região do Cariri paraibano.

Classificação sócio-econômica da periferia

Segundo a Box1824, a própria classificação desse grupo de pessoas que habitam as ditas periferias precisa ser revisto. Como exemplo, cita os domicílios às margens de rios e locais periféricos que não possuem saneamento, mas têm vários televisores e investem pouco em compra de alimentos, porque sua subsistência vem das águas ou hortas. Outros pais de família não têm educação formal, mas aprenderam e são exímios construtores de instrumentos musicais, por exemplo.

“A que classe essas pessoas pertencem?

Mayra Fonseca, autoria do estudo, diz que gosta de chamá-los de “Mestres do Cotidiano”. Segundo ela, “o interessante de questionar a miopia por trás das classificações generalistas que mais nos afastam do que aproximam dos cenários que precisamos observar é que, junto a essa nova capacidade de olhar para Brasis que a gente não vê, há a possibilidade de aprender outras histórias e técnicas também nossas”.

 

Personagem das mulheres rendeiras do Cariri, na Paraíba, parte do projeto da estilista Fernanda Yamamoto

 

Periferia e consumo

O estudo mostra que das rendeiras de Renascença aos pensadores indígenas, somos cada vez mais influenciados por pessoas que borram qualquer fronteira de classe e essa influência também impacta as gôndolas do supermercado e das lojas.

Desta forma, variáveis que dizem respeito à criatividade cotidiana e à energia cultural apresentam-se como moedas de troca e deveriam ser consideradas quando pensamos em quem são os influenciadores de comportamento na sociedade.

Mas o que se ganha em ampliar esse olhar? Inspiração para criar algo novo em colaboração com pessoas e comunidades colocadas à margem e que podem trazer grandes possibilidades de troca de produtos e informações, além de ajudar a conciliar inovação com desenvolvimento sócio-econômico.

 

 

Que tal olhar essas pessoas e sua arte e buscar aplicações para a criação de móveis? Qual a repercussão positiva (além da venda) que essa ação pode trazer? Deixe seu comentário ou envie sugestões de outros projetos no setor moveleiro para nossa redação: [email protected].